segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Resenha: Candy, de Luke Davies



Alguns livros nos tocam de maneira real e dolorida. Outros são como passar por uma cidade, de carro, e não parar para ver nada de perto. Alguns livros são tão viscerais que você o vivencia como se tivesse entrado numa cidade, bairro ou casa e tocasse cada elemento presente ali: sentisse seu cheiro e textura. Candy é um deles.

Este é um livro sobre amor e vício, e como essas duas coisas se aproximam. Dan (na verdade, o nome do narrador não é dito, o que nos remete ao passado do autor Luke Davies, que também passou anos dentro do vício em heroína. Peguei emprestado o nome que a adaptação cinematográfica dá ao protagonista) conhece Candy e se apaixona rápido: é uma história bem clássica. Um viciado em heroína e uma garota muito linda que breve também iria injetar a droga em suas veias. Livros e filmes sobre drogas costumam seguir um padrão triste envolvendo abstinência, risco de vida e prostituição. Candy não é diferente disso, mas perpassa muito do universo que existe dentro das pessoas, e é isso que torna esta história tão especial.

Depois de morarem juntos, Dan e Candy têm uma história de amor baseada em heroína: acordar, usar, conseguir dinheiro para a próxima dose antes de começarem as horríveis dores e o suór pegajoso da abstinência. O dinheiro dos pais de Candy não é suficiente para manter uma casa e o vício de duas pessoas. Logo ela começa a se prostituir e Dan continua com os ocasionais golpes e roubos de carteira. O problema é que quanto mais dinheiro se tem, mais dinheiro se gasta em drogas, e consequentemente mais eles usam. O casal não conseguia ter muitos bens em casa por algum tempo. Todos os itens eram vendidos por heroína. A base do relacionamento eram as horas cheias do calor que a droga proporciona, planos de viagens, ambos limpos, sem aquela substância entupindo suas veias, um bebê, uma família e casa de verdade.

Este é um livro dividido em capítulos sobre decadência lenta que o destino reserva aos dois. Como o próprio Dan, como narrador descreve, haviam os bons momentos e os momentos ruins. Os bons momentos eram o sexo, as cores do mundo muitos vivas e douradas, banhadas em heroína e cigarros. Os ruins eram a abstinência, as brigas, Candy se prostituindo. Doença, dor, fracasso. Como também diz Dan, heroína atrai problemas.

Muitos dos eventos narrados por Dan me surpreenderam: eu já esperava, ao começar um livro sobre vício em heroína, que leria sobre tentativas fracassadas de abandonar a droga, prostituição e tristeza. Não imaginava ler que Dan não conseguiria mais encontrar veias nos braços, mãos, pernas ou pés. Ou que Candy se aproveitaria das tendências suicidas de um homem aleatório para extorquir dinheiro dele. Ou que masturbação ajudaria a aliviar os sintomas de abstinência. Nós sempre imaginamos pior do que realmente é, e ainda assim, esta é uma história que me chocou.

Durante a leitura, eu me sentia submersa. Era como se eu estivesse dentro de Dan, experimentando o mundo sob a visão de alguém que não está realmente em contato com ele. O mundo deste casal não é o nosso, é o deles. Candy e Dan contra o mundo, numa redoma de vidro, dentro de uma seringa. 

Ainda assim, cada um deles vivencia o vício de maneira diferente. Candy muitas vezes pergunta a Dan se ele não vê o que aquela vida estava fazendo com ela e minha impressão foi de que ele nunca entendeu. Mais para o final da história, percebemos que Dan não conseque vivenciar o mundo, ou os outros, inclusive Candy, sob a heroína. O vício, para ele, era desligar o mundo como ele realmente é.

É uma leitura poética e que não se arrasta em momento algum. Os personagens são jovens e divertidos, e as situações, quando não são terrivelmente trágicas, são até engraçadas (destaque especial para o capítulo em que Candy e Dan ficam infestados de piolhos). Alguns capítulos, apresentados em itálico são absolutamente introspectivos e pouco narrativos da vida do casal. Estes foram os meus preferidos, porque traziam uma verdade difícil sobre quem Dan era sob efeito da heroína e como as coisas doíam de maneira bonita.

Eventualmente eles começam o tratamento com methadone, uma substância que retira os efeitos da abstinência e facilita o fim do vício. Ambos começam a perceber como estavam tristes, como tudo era vazio, como o amor talvez não fosse suficiente. Como falei, a heroína os deixava submersos: emergir do vício significava emergir para o ser que eles realmente eram e isso era cutucar a seringa. As conversas entre os dois começaram a revelar muita dor e ressentimento. Fazer planos não era mais um combustível para esperança: com heroína, tudo parecia possível. Sem a droga, viajar, ter filhos, uma casa e felicidade pareciam distantes demais.

O livro termina com um um prólogo que na verdade é um flashback para a primeira vez que Candy injetou heroína, e então entendemos como os dois se uniram. É o tipo de coisa que você deve ler para entender e sentir, então não vou contar.

Assisti o filme de 2006 antes de ler o livro e me arrependo. Sinto que ambas as experiências teriam sido mais intensas para mim se tivesse tido contato com o livro antes, mesmo que o longa tenha tido participação do autor. É uma ótima adaptação, mas não vai tão fundo nos personagens como a escrita vai: acho que neste caso, nem toda a poesia desta história pôde ser passada para a sétima arte.

Dan é interpretado por Heath Ledger e Candy por Abbie Cornish, ótimas escolhas. Luke Davies escreveu também para o filme e a direção é de Neil Armfield. O resultado é incrível e recomendo o filme para qualquer um que aguente dor.

“I am so far removed, from everything, that I can’t even cry. There’s a chasm between me, where I am, and the world I am in. The world I move my feet through. The atmosphere I breathe is like golden syrup, twenty-seven atmospheres thick. I’m wading through the world, consumed with … consumed. And I’m wading through the swamp that my body has become.”

“Eu estou tão distante, de tudo, que eu não consigo nem chorar. Existe um abismo entre eu, onde estou, e o mundo onde estou. O mundo pelo qual movo meus pés. A atmosfera que respiro é como seiva dourada, vinte e sete atmosferas de espessura. Eu estou vagando pelo mundo, cosumido por... consumido. E eu estou vagando pelo pântano que meu corpo se tornou.”


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

John e Shilloh: barreiras de gênero




Se você achava que seria a Kim Kardashian quem quebraria a internet, se enganou: toda vez que a filha de Angelina Jolie aparece nas câmeras, é todo um rebuliço. 

O motivo é simples: trata-se de uma menina que não gosta de se vestir da forma convencional para meninas e que, de algum tempo pra cá, prefere ser chamada de John. Antes de mais nada, é incrível ver a compreensão e apoio de Angelina e Brad a como a criança quer se vestir ou ser chamada. Esse deve ser um exemplo para os pais mundo afora, inclusive conhecidos meus, que agridem uma criança de apenas dois anos por gostar de batom. 

O que a posição da criança e dos pais para o mundo e o choque da sociedade nos diz é que as barreiras de gênero vão muito bem, obrigada. Tão bem que pessoas de fora da família já decidiram que a criança é trans (ou seja, foi designada como menina ao nascer, por ter vagina, mas se identifica como homem), algo que com certeza não é definido por um nome e umas peças de roupa, em especial quando se é tão jovem. Mas não é esse meu questionamento: trata-se de uma questão pessoal de John, ou Shilloh, ou o nome que a criança preferir. Trata-se de uma decisão a ser tomada por ela quando o mundo a sua volta fizer realmente sentido. 

Antes de qualquer coisa, é importante voltar à princípios básicos do feminismo, que infelizmente a gente se esquece fácil: 

Existe uma divisão entre homens e mulheres em sociedades patriarcais. Essa divisão não só separa um do outro, como coloca os homens em cima. Nós somos suas subordinadas, esposas, mães cuidadoras: lavamos suas roupas, cuidamos de seus filhos, limpamos sua casa. O problema não está em lavar, limpar e cuidar, mas sim fazer isso para homens sem sequer haver reconhecimento. Sem falar na limitação: seu lugar é um vestido rosa lavando a louça ou numa área de trabalho "feminina" como a medicina ou educação. Você tem que ser linda, mas não demais. Você tem que ser muitas, muitas coisas mesmo, em especial no que diz respeito a sua aparência e sexualidade. Quando se é mulher, você tem um lugar muito limitado para ocupar no mundo. 

Punk rock não é coisa de mulher, nem calça militar, nem cabelo curto, nem esse cachorrão

E é aí que entra a controvérsia da filha da Angelina Jolie. É uma criança que nasceu menina, que tem não só a família e a sociedade esperando um papel de menina dela: existem holofotes que esperam que ela apareça em público de vestido rosa ou fazendo o estilo "mini-adulta" que tem surgido por aí. Ao invés disso, a criança aparece de terno. 

Provavelmente a maior vantagem dos ternos são os bolsos.


E mulher não pode usar terno? 
Janis Ian já estava quebrando esse estereótipo no Meninas Malvadas, em 2004: 

Me possua, Janis.

Pra muita gente, ser homem ou mulher tem a ver com a roupa que você usa ou os objetos que gosta de ter por perto. Por isso se assustam quando veem uma criança menina brincando de carrinho ou correndo sem camisa na rua. Se assustam ainda mais quando é um menino se divertindo com bonecas ou querendo passar maquiagem: às mulheres, o cuidado, aos homens, explorar o mundo. 

A reação da mídia e dos fãs à roupa e escolha de nome de Shilloh choca porque, ao mesmo tempo em que associam ser mulher à vagina, também associam a várias coisas: vestidomaquiagemcuidadorosaboneca. Já a reação de alguns núcleos feministas à uma criança que escolheu um novo nome e usa terno é algo que ME choca. Surgiram muitos dedos apontados para a criança, dizendo que ela é trans! Shilloh tem 8 anos. 

Tudo o que Shilloh fez foi adotar um estilo que a agradava, por n motivos que ela mesma deve saber. Mais agradável aos olhos? Mais confortável? Vontade de ficar vestida igual a um homem específico? Nós não vamos saber tão cedo.

Dizer que Shilloh é trans por isso é dizer que ser mulher é usar vestido e ser homem é usar calças. E nós estamos em 2014, anos e anos depois da primeira onda feminista.

Como é fácil esquecer tudo que aprendemos lá atrás! Como é fácil esquecer o quanto lutamos pelo direito de sermos mulheres e podermos fazer o que quisermos, vestirmos a roupa que quisermos sem sermos rotuladas por isso. Shilloh é uma garota que já recebeu vários rótulos: trans, tomboy, lésbica, machinho. Não evoluímos nada, pelo visto. Era para Shilloh ser só mais uma garota sendo ela mesma, explorando diferentes estilos e tendo uma infância legal. 

Quanto a ela preferir ser chamada de John, eu não pularia diretamente para a conclusão de que se trata de uma criança transexual. Eu penso que Shilloh é uma garota tão inteligente que já notou que John pode ser quem ela quer ser, enquanto Shilloh tem expectativas de menina. 

Ela já percebeu que como John, ela pode ser quem ela quer, e como Shilloh não. É uma lógica simples e que uma criança poderia fazer. Se ser menina é ter que usar vestido e fazer coisas que ela não quer, então agora é John, que pode fazer isso tudo sem ser julgado.

Eu não acho isso saudável. Acho sintomático, e acho que a barreira de gênero, hoje em dia, está fortíssima. Nós mulheres não podemos apenas ser, despreocupadamente, nós mesmas. Nos deram mais um monte de moldes para seguir.

Meu objetivo não é estipular se a criança é ou não trans, ou as políticas envolvidas nisso. Meu objetivo deveria ser claro a todas as feministas: definir uma criança como homem ou mulher com base no que ela gosta de vestir e brincar é machismo puro. É um retrocesso em décadas de luta feminista pela libertação das mulheres dos papéis que nos foram impostos. É afirmar que, sim, Amélia que era mulher de verdade, que fazia tudo em casa e ainda estava lindíssima para o marido. É afirmar que ser mulher é um papel muito bem definido.

Edit (20/12):
Uma amiga me apontou coisas importantíssimas, então segue a fala dela:

"O Brad Pitt falou em entrevista que ela, na época com 2 anos (!!), queria ser chamada de John ou Peter por causa do Peter Pan. Não era a identidade de gênero dela. http://goo.gl/q2Sjtd
Aí nessa reportagem tem tbm uma fala da Jolie falando que a pira dela é ser que nem os irmãos e boa, nada pra ficar sendo interpretado.
Aí com 6 anos ela queria ser chamada de Ben e depois de Shax (pra combinar com os nomes dos irmãos) http://goo.gl/W19SLc
Enfim, em 2010 a Jolie já tava pedindo pra não julgar a Shiloh pelas roupas masculinas (http://goo.gl/HrR475)."

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Resenha: Gone Girl





De início esse não foi de longe um filme que me interessou, mesmo com a direção de David Fincher. A premissa não me prendia, e a ideia de um homem que procura pela esposa desaparecida me parecia demais como um longa da Tela Quente para que eu me dedicasse a assistir. O livro então, era completamente ignorado por mim nas prateleiras da livraria.

Depois de subestimar Gone Girl o suficiente para não pegar uma sessão no cinema, assisti às duas horas e 26 minutos do filme com o namorado, e posso dizer que definitivamente foi uma das melhores obras do ano. 

Ben Affleck (sim, eca) interpreta o marido cuja esposa sumiu, Nick. O filme já começa com o sujeito indo tomar umas com a irmã, reclamando da esposa e do aniversário de cinco anos do casamento. Ele é, claramente, um homem infeliz, mas o espectador não sabe porque. Somos introduzidos à história de Nick e Amy, que viveram anos de um romance ardente e feliz, até que o casamento, com falta de palavras melhores, perdeu a graça. 

Nick volta para casa e não encontra sua esposa, mas uma mesa quebrada. Depois de acionar a polícia, fica evidente que Amy não simplesmente saiu: houve uma luta e ela, pelo visto, perdeu. 

Amy é querida e famosa - trata-se do desaparecimento de uma celebridade milionária. Protagonista da série de livros infantis "Amazing Amy", criada por seus pais, ela tornou-se a personagem: exemplar. A reflexão da queridinha da américa, loira, linda, de voz sensual e fotogênica. Assim como o casamento.

Até aí, o filme poderia ser mais um dos clássicos da Globo na segunda-feira à noite. No entanto, vamos descobrindo alguns podres no casamento e em Nick, o que nos leva a pensar se esse cara realmente quer encontrar a esposa. Ou se, na verdade, ele a matou e está apenas bancando o bonzinho. 

Este é um filme cheio de reviravoltas e, honestamente, se não fosse a direção de Fincher, ele seria um desastre. Ben Affleck é sofrível, com um personagem morno que rapidamente aprendemos a detestar. Era uma direção difícil, com um roteiro complicadíssimo e que tinha tudo para dar errado. O spoiler é: não deu.

A partir daqui vou falar sobre o principal spoiler do filme, então fique avisado:

Eis que a garota exemplar não é tão exemplar assim: depois de deixar um diário estrategicamente escondido para a polícia encontrar, Amy começa sua fuga e forja seu desaparecimento. No diário, Amy descreve diversas brigas, uma agressão física da parte de Nick e o medo de ser assassinada por ele - tudo mentira. O motivo é a distância de Nick, causada, em especial, pelo caso que ele está vivendo com uma de suas alunas, de apenas 20 anos. Uma cena clássica de final de filme se segue: a atriz Rosamund Pike dirige satisfeita para longe de tudo, saboreando a vingança planejada contra seu marido, cabelos ao vento, óculos de sol.

Muitas vezes, durante esse longa, me lembrei de Um Crime de Mestre (Fracture, 2007), estrelado pelo meu querido Anthony Hopkins. Um crime que não pode ser provado, a vingança de um dos cônjuges, o suspense... exceto que em Gone Girl a esposa está vivíssima e louca para se vingar. 

Amy descobre que fugir e mudar de identidade não é tão simples e, depois de ter seu dinheiro roubado, pede ajuda a um antigo namorado que jamais a esqueceu. Mantendo a imagem de esposa agredida e apavorada, Amy é levada até a casa no lago do sujeito, interpretado por Neil Patrick Harris. Coberta de luxos, Amy assiste um programa de tv em que Nick, auxiliado por um advogado, limpa a recém-adquirida fama de assassino. Ele pode ter traído e desrespeitado a esposa, mas não a matou. Ele a ama e a quer de volta. Sente sua falta. Obviamente, Amy fica abalada pela situação.

O filme traz um peso midiático muito grande: como Amy é uma celebridade, diversos programas e canais da tv fazem a cobertura do seu desaparecimento. Um deles é um talk show sensacionalista, que afirma que Nick é um assassino, mesmo sem provas, e que ele e a irmã têm uma relação incestuosa. A influência da mídia no caso é notório, em especial mais para o final do filme, em que os personagens são, literalmente, atores para a mídia. 

Uma outra sensação que tive enquanto assistia é que Gone Girl tem um quê de american way of life: o casal perfeito, cheio de aparências, quebrado por dentro. Todo o peso de serem famosos e estarem juntos e a torcida por um final feliz por parte da mídia e das pessoas acompanhando o caso revela que, para o EUA contemporâneo, bom mesmo é um grande show de família feliz. 

A partir daqui já é spoiler demais e todo mundo já entendeu que esta não é uma clássica história "boy meets girl" e sim babaca encontra obssessiva.

Dos destaques desse longa, o maior deles é a atuação de Rosamund Pike, interpretando a mesma personagem e suas duas faces com tanta naturalidade que assusta.

 

Depois disso, ficam meus aplausos empolgadíssimos a David Fincher (estou aqui na torcida ferrenha para que o Oscar de Melhor Diretor seja dele). Depois de assistir Gone Girl e eu só conseguia pensar em como esta história complexa poderia ser contada de forma chata, longa, confusa, melosa ou dramática demais. A naturalidade e simplicidade com a qual ela se desenrola é incrível. 

E mais aplausos a Trent Reznor, que produziu a trilha sonora. Aqueles batimentos cardíacos me deram ansiedade na hora certa.

Agora meus tradicionais comentários sobre a moral da história, representatividade e todo o resto. A parte que talvez os maiores cinéfilos não tenham interesse: 

Esta é uma história sobre uma mulher psicopata e inteligentíssima que se vinga de um homem covarde e infiel. Um cara nada bonzinho, mas que definitivamente acaba sendo vítima da esposa. 

Gosto bastante de uma cena em que Nick diz que está cansado de mulheres enchendo o saco dele. Bom, amigo, como falo a todos os homens, se não quer mulher enchendo seu saco, não faça por merecer.

Amy finge ter sido agredida, estuprada e até uma gravidez falsa ela conseguiu inventar. Infelizmente vivemos num mundo em que não precisamos de mais histórias de mulheres que mentem para ferrar a vida de homens, já que é exatamente isso que alegam quando uma mulher relata ou denunciam estupro, abuso ou agressão na vida real. Gone Girl perde muitos pontos nisso, para mim. Ainda assim é uma história incrível. 

E há vários momentos em que Amy fala grandes verdades:
"Garota Legal. Homens sempre usam essa, não usam, como o elogio definitivo? Ela é uma garota legal. A Garota Legal é gostosa, Garota Legal é jogo, Garota Legal é divertida, Garota Legal nunca fica com raiva do seu homem, ela apenas sorri de um jeito tímido e amoroso, e então apresenta sua boca para trepar. Ela gosta do que ele gosta, então obviamente ele é um hipster que gosta de vinil e mangá fetichista. Se ele gosta de Girls Gone Wild ela é uma garota de shopping que fala de futebol americano e tolera asinhas de frango na Hooters. Quando conheci Nick Dunne eu sabia que ele queria Garota Legal, e para ele, eu admito, eu estava disposta a tentar. Eu depilei minha buceta. Eu bebi cerveja assistindo filmes do Adam Sandler. Eu comi pizza gelada e continuei sendo tamanho 36. Eu o chupei, semi-regularmente. Eu vivi o momento. Eu era a porra de um jogo. Não posso dizer que eu não gostei um pouco. Nick provocava coisas em mim que eu não sabia existirem. Uma leveza. Um humor. Uma facilidade. Mas eu o fiz mais inteligente, perspicaz. Eu o inspirei para subir ao meu nível. Eu forjei o homem dos meus sonhos. Nós estávamos felizes fingindo ser outras pessoas. Nós éramos o casal mais feliz que conhecíamos; e qual o ponto de estar juntos se não éramos os mais felizes? Mas Nick ficou preguiçoso. Ele se transformou em alguém com quem não concordei me casar. Ele realmente esperou que eu o amasse incondicionalmente. E então ele me arrastou, sem dinheiro, para o umbigo desse grande país, e se descobriu uma nova Garota Legal mais jovem, mais flexível. Você acha que eu deixaria ele me destruir e acabar mais feliz do que nunca? Nem fodendo. Ele não vai vencer. Meu fofo, charmoso, homem de Missouri. Ele precisava aprender. Adultos trabalham por coisas. Adultos pagam. Adultos sofrem consequências."


Justifica incrimar o marido por um crime que ele não cometeu? Não, mas fala por todas nós e o fato de estarmos cansadas de tanta coisa ruim cair nos ombros de nós mulheres e nada acontecer com os responsáveis. é um filme que traz uma mensagem (infelizmente, acho que ela vai se perder no tempo), que é de como as mulheres se diminuem para tornar seus homens melhores.

No fim das contas, Gone Girl é um filme que prende e conta uma história diferente das que vemos por aí hoje em dia. Pra quem carrega um tiquinho de misandria, é delicioso torcer pela Amy e seu plano de vingança. Pra quem quer só um suspense, é com certeza o melhor lançamento do ano.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A liberdade do Professor

Homem que engana, manipula e assedia mulher: não importa se é de esquerda. Não é meu companheiro de luta.


(TW: heterossexualismo, piv, sexo hétero, prostituição)

Se você não sabe do que se trata esse post, leia aqui e aqui primeiro.

Eu convivo com muitos homens "feministas". Eu vou descobrindo, aos poucos, que eles não são tão legais assim. Não que eles pisem na bola de vez em quando: eles pisam sempre. Sempre chega algo no meu ouvido: "fulano gosta de novinha", "fulano forçou a barra com fulana", "fulano traía fulana", "fulano obriga fulana a aceitar relacionamento aberto".

Por muito tempo eu me esforcei absurdamente pra desconstruir monogamia. Me sentia culpada de sentir ciúmes, de estar num relacionamento fechado, de não ser livre o suficiente. Eu entrei num grupo chamado "Rli Belo Horizonte".

Um dia, um cara já famoso por ser escroto com mulheres, postou uma imagem com os seguintes dizeres:
"Com tanta coisa pra dar, você vai dar uma de difícil?"

E aí começou minha desconfiança de que não havia segurança num ambiente em que eu não poderia dar uma de difícil, já que tenho vagina e ânus pra dar. Com dois buracos pra dar, por que eu daria uma de difícil? Haha.

Na medida em que o "poli", como o I****** fala, se constrói, a amiguinha responsabilidade fica pra trás. E o respeito também. E o bom senso. A gente começa a esquecer que as pessoas com quem nos relacionamos (em especial mulheres) são humanas.

Libertação sexual na esquerda tem significado as mulheres abrirem as pernas pra qualquer um (falo qualquer um porque a libertação sexual das bissexuais e lésbicas ficou pra trás e esquecida em meio à fetichização e lesbofobia). E isso ser considerado muito bonito, libertador, e ai de quem achar feio que é moralista.

O problema é que enquanto as mulheres acham que estão se divertindo, se libertando, as vezes, de um relacionamento já abusivo com o marido/namorado atual etc, os homens as exploram.
Eu já vi homens falarem que fazem questão de namorar feministas. Por que? Nós somos mais tolerantes? Acho que não. Nós somos é mais livres, mais mente-aberta, queremos nos libertar dessa cultura que fala que fazer sexo anal é rebaixar a mulher (novos estereótipos feministas: de lésbicas peludas à mulheres que dão o cu e fazem suruba. Sinto saudades do primeiro). E aí você luta pra não ser chamada de puta na rua, mas tem um cara que está transando com você te chamando de puta pra "te excitar". E você se excita, porque a puta é livre, né? Não. Porque o cliente da puta a explora, e esses homens exploram mulheres também. Não é só uma palavra quando o cara realmente te trata como uma, te explora como uma, te manipula como uma. Não é só uma palavra quando ele te domina.

Essa discussão importa porque hoje em dia (eu tenho 20 anos e já estou sendo obrigada a usar essa expressão) um homem que: mantém inúmeros casos com mulheres casadas, as prefere porque assim não precisa assumir responsabilidades; as coloca em situação de risco com homens violentos; engana a parceira atual; etc, é visto como apenas um homem heterossexual flertando e desconstruindo monogamia.

E se você é uma mulher formada, inteligente, feminista, casada, e caiu na teia de manipulação desse cara, bom, a culpa é sua, né? Você que estava tentando se libertar. Se achou ruim, por que não pulou fora?

Bom, quando você passa tanto tempo sendo ensinada que transar com um cara que te trata feito lixo e fala que pode meter em você de tal a tal hora é ser livre e subversiva, você passa a acreditar. Quando você percebe que gosta do cara e que se não transar com ele, outras vão, você acaba indo, porque ganhar migalhas é melhor que nada quando se é mulher. É assim que a gente aprende. E aí o que era pra ser uma libertação sexual se torna sua cruz e quando você assusta, você está apaixonada por um cara que não te assume, te trata mal, te vê como objeto "puta", e se você não der pra ele, você sabe que vão ter outras pra ele comer. Porque ele faz questão de te falar. Afinal, ele é poli. É um cara disputado.

O caso do I****** não é o primeiro, nem o último. Esse padrão de manipular e enganar mulheres usando amor livre/poli/rli como escudo é tática antiga. Ele começou com isso em 2005. Até hoje chegam mulheres me contando que foram manipuladas por homens que consideram liberdade poder mexer com a cabeça de uma mulher o quanto quiser, transar com ela e ter zero responsabilidade quando a casa cai, ou em qualquer momento.

O que eu quero dizer é: é ok dizer "não". Pra não monogamia, pra qualquer tipo de sexo, pra sexo em si, pra relacionamentos que não são sérios. É ok querer ser tratada bem. É ok achar que sua liberdade não envolve esse tipo de situação, e eu espero que as mulheres lendo isso não percam o tempo que perdi me machucando e me culpando porque eu não queria ter um relacionamento "livre". Mal sabia eu que o choro que eu tinha, achando que estava sendo possessiva, egoísta, blablabla, amor sem posse, sem poder, etc, era uma própria gaiola feita de culpa.

Se liberdade for significar ser tratada "como puta", eu passo. Eu não sou puta, e nenhuma de vocês é.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Transtornos alimentares são uma questão feminista



Enquanto feminista, falar sobre o corpo das mulheres vai ser sempre um terreno mais perigoso do que parece. Quando clamamos pela liberdade sobre o próprio corpo, muitas de nós vão querer lutar pela liberdade de fazer cirurgias plásticas, dietas e toda sorte de modificações. Às vezes, falar sobre a cultura da magreza acaba por soar como "apologia à obesidade" (não que eu acredite nisso), ou mesmo como uma tentativa de podar as mulheres que buscam se encaixar no padrão. A conversa, na realidade, não é sobre isso. É sobre uma sociedade nojenta e doentia que manipula mulheres através da aparência.

Muito se fala sobre a liberdade sobre o próprio corpo, mas vejo um silêncio doloroso e incômodo sobre muitas de nós que estão presas em si mesmas ao sofrerem com transtornos alimentares. Minha tentativa é de dizer que TAs são assuntos feministas. Ou deveriam ser: muitas militantes não sabem muito sobre o assunto porque, na verdade, quase ninguém sabe. Nós vemos filmes, lemos livros e no fim das contas não entendemos muito sobre o que é ser uma mulher anoréxica ou bulímica.

Descobri, na minha recuperação, que ser uma mulher bulímica era muitas vezes o mesmo que ser apenas mulher. Meus comportamentos eram apenas uma amplificação de diversas atitudes consideradas comuns e até mesmo femininas, assim como as maiores bizarrices alimentícias passavam despercebidas socialmente. Eis um dos motivos pelos quais quase nunca se pega uma anoréxica ou bulímica em flagrante. As conversas sobre peso, corpo, a contagem de calorias, a incerteza ao olhar o cardápio, preferir ficar em casa do que comer uma pizza com os amigos... são todas atitudes enraizadas culturalmente não só como naturais, mas femininas. Coisa de mulher.

Recentemente tive o prazer sádico de ler Wasted, um memoir da jornalista Marya Hornbacher de seus 15 anos lidando com anorexia e bulimia. Um livro que, como todos do gênero, foi manual para muitas garotas com TAs, mas que traz uma luz feminista para a relação da autora com comida.

“Havia inúmeros métodos de autodestruição disponíveis para mim (...). Eu escolhi um transtorno alimentar. Não consigo deixar de pensar que, caso eu vivesse em uma cultura em que a ‘magreza’ não fosse vista como um estranho estado de graça, eu poderia ter buscado outras maneiras de alcançar essa graça, talvez uma maneira que não tivesse danificado o meu corpo tão gravemente e distorcido tão radicalmente o meu senso de quem eu sou" Marya Hornbacher, em Wasted

Marya aborda todas as questões que engatilharam seu transtorno: perfeccionismo intenso, uma família complicada, uma cultura obcecada pela magreza feminina. Fatores que quando se encontram podem formar uma combinação perigosa. Marya chegou a pesar 52 lbs, algo como 24kg. Nesse ponto, sua doença já era literalmente visível em seu corpo emaciado, mas o caminho até lá foi de 15 anos de sofrimento. 15 anos de uma dieta completamente desbalanceada. Mesmo hoje, Marya pode morrer durante o sono porque seu corpo nunca se recuperou do abuso. Muitas de nós, mulheres com TA, vamos viver com essas doenças para o resto das vidas sem que absolutamente ninguém perceba.

Marya Hornbacher hoje em dia. Saudável.

Isso acontece, e afirmo veementemente, porque nossos comportamentos foram naturalizados. A habilidade de dizer não a comida e negar as vontades mais primitivas de sobrevivência do corpo tornou-se símbolo de poder, como se as mulheres estivessem finalmente conquistando o controle final sobre si mesmas: longe da histeria, do descontrole, da compulsão. Negando qualquer signo tido como feminino, desde a curva de coxas e quadris e seios até o dito chocolate tão amado pelas mulheres em TPM. Passar fome tornou-se o novo feminino: mulheres devem comer pouco, ocupar o mínimo de espaço possível, parecerem frágeis, dizer estar cheias quando nem 10% do seu prato foi comido.

Me lembro de estar numa mesa de bar com meu ex namorado, há alguns anos. Naquela época, eu sequer encostava em refrigerante que contivesse calorias. A coca normal dele chegou, e depois a minha zero, junto com um amigo que, em tom de brincadeira, disse: "A coca zero é dela, né?". Espera-se que mulheres estejam de dieta e, se um homem o faz, é até vergonhoso. O óbvio para nós é a restrição, o zero.

Mulheres hoje em dia vivem para o domingo em que podem comer sobremesa, enquanto os homens de meia idade engordam segurando garrafas de uísque e comendo carnes gordurosas, entupindo as artérias com o prazer que não é feminino. O prazer da mulher é o pilates, a corrida, a academia três vezes na semana. Me sinto deslocada por ser uma das poucas mulheres que conheço que não malham. E uma das poucas que ousa desejar comida. Ainda assim, tenho medo de dizer que estou com fome.

Poucas mulheres têm coragem de dizer em alto e bom som: Estou morrendo de fome! As vezes que ouço um homem dizer isso são incontáveis. Eles merecem aquelas calorias, per se. As mulheres buscam desculpas desesperadamente: não comi nada o dia todo, almocei apenas uma salada, não como doces há meses, vou queimar isso tudo na esteira hoje a noite. As mulheres pedem desculpas por comer.


Sempre bom lembrar que comida é combustível para o funcionamento do corpo. Claro que não se trata somente de sobrevivência: sobreviver com TAs é possível e temos feito isso por anos. O problema, na realidade, é viver de fato: é possível andar por aí e funcionar com pouquíssima comida, mas a dor e a pressão psicológica, a sensação de não-merecimento e de falha constante... são questões desconhecidas por homens, no geral. Quantos homens precisam pensar se merecem ou não um hambúrguer?

Nós mulheres fomos adestradas, socialmente, a vermos comida como o inimigo: enquanto nossos irmãos se inspiravam nas carreiras profissionais dos pais e queriam ser advogados, executivos, bombeiros, nós mulheres nos olhávamos no espelho pensando se não estamos um pouco gordinhas (já que a mamãe parece temer tanto isso, só pode ser algo realmente muito ruim). A pior coisa que uma mulher pode ser, é gorda. A gordura passou a ser o oposto do feminino, e qualquer coisa que a aproxime disso (como comida!) será vista como inimiga. Ser mulher é estar de dieta, contando calorias e se punindo por desejar.



Marya Hornbacher faz o paralelo em seu livro que a restrição ao desejo sexual da mulher foi substituída pela restrição ao desejo por comida. O prazer em fazer sexo deixou de ser o centro de backlash: o negócio agora é comida. Ambos os assuntos, obviamente, dizem respeito ao prazer e ao corpo. Quando controlar as mulheres através do prazer sexual não foi mais tão eficaz, sua alimentação e auto-imagem tornaram-se ótimas ferramentas de controle.

O backlash contra o feminismo engoliu o movimento: os anos 80 eram obcecados por aparência, malhação e magreza. Essa década destruiu as mulheres, e elas agora são mães e ensinam às suas filhas que elas podem até não casar virgens, mas ser gorda já é demais.

Uma vez conheci uma garota anoréxica que desenvolveu a doença depois de ter sido abusada sexualmente por um parente. Descobri, com o relato dela, que isso é muito comum: muitas vítimas associam o ganho de peso à vulnerabilidade porque seu corpo ganha curvas e se afasta do dito masculino, aproximando-se do feminino que é visto como voluptuoso. Logo, desejável, vulnerável, chamativo, errado. Muitas vítimas também utilizam o controle da alimentação como a válvula de escape para o controle que perderam sobre o corpo durante o abuso ou estupro. Claramente, a alimentação feminina e o domínio sexual de homens estão ligados. (Também acredito que muito tem a ver com os padrões de beleza infantilizadores atuais, em que a magreza da anoréxica é uma regressão ao corpo pré-púbere. Mas isso é material para outro texto.)

Concluindo que transtornos alimentares se tornaram não só naturalizados como desejáveis na sociedade contemporânea, bem como a relação entre sexo e comida para muitas, é preciso, agora, discutir o posicionamento feminista sobre isso. A questão não é simples: transtornos alimentares são vícios estimulados indiretamente pela mídia e sociedade e a grande maioria das vítimas não quer abandonar os comportamentos auto-destrutivos.

Como o feminismo pode ajudar essas mulheres é algo a ser pensado, já que tão pouca atenção foi direcionada a isso no Brasil. O feminismo e o movimento body-positive salvaram minha vida, literalmente. Eu poderia ter morrido, mas aprendi a gostar do meu corpo o suficiente para parar antes de me matar. Por agora, sobrevivo. No entanto, o que nós militantes buscamos vai além da sobrevivência: é dignidade e qualidade de vida. Liberdade, enfim. Poder comer aquele pedaço de bolo de fato sem culpa, encontrar prazer nas atividades humanas, que não deveriam ser reservadas a um só sexo.

Assim, a problematização feminista deve sim perpassar o individual e atingir o cerne das questão: nossas meninas estão sendo ensinadas a serem anoréxicas ou bulímicas. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Oito anos (trigger warning)

Fonte: http://shakysmiles.tumblr.com/


12
Mais uma tarde sozinha em casa. Ela era uma garota solitária e tinha muitos dias assim.  Uma das memórias mais vívidas daquele tempo era o piso frio do banheiro sob seus joelhos, depois olhos vermelhos e inchados a encarando de volta no espelho, água gelada correndo por suas mãos na pia.

13
As outras garotas da escola comiam coxinha às 9:30 da manhã, mas era ela quem era chamada de porca. Elas vestiam bermudas coladas para a aula de educação física. Um garoto a barrou na porta da sala dizendo que só as meninas bonitas poderiam entrar.

14
Adorava tirar fotos, mas só do seu rosto, que era magro.

15
Encontrara um garoto que também se sentia mal. Pouca gente se sentia mal naquela época, mas ela não entendia muito bem a graça que outras pessoas tinham em viver aos 15. Sentia-se suja, e, enquanto ele estava deitado na cama e trocavam beijos de boa noite, ela não merecia nada de bom. Era nojenta. "É sério, preciso ir ao banheiro". Embora ele não fosse muito diferente dela, o som o deixou chateado e ele se recusou a falar com ela até o dia seguinte, em que a fez prometer que não aconteceria de novo.

16
Sua garganta doía e ela estava rouca. Era inverno, suas unhas eram grandes e a comida da época era sensacional. O refluxo gástrico estava ficando um pouco fora de controle, mas o namorado da época era compreensivo e talvez não se importasse muito com o cheiro do ácido.

17
Ela duvidava que ainda estivesse sendo tão patética na altura do próximo aniversário, mas pesava-se seis vezes por dia.

18
Eles se encontram na rua. Naquele dia, as roupas pareciam mais apertadas, mesmo que não estivessem de fato. Mãos de dedos finos e longos estendem uma caixinha colorida com o nome de uma cupcakeria. Os olhos dele brilham com a expectativa pelo agradeimento dela, a alegria de quem recebe um presente. Ela começa a chorar.

19
Ela conhece banheiros, não lugares. O único lugar que conhece por paredes, pessoas e sons, é a universidade. Todo o resto são privadas, descargas, pias e espelhos sujos.

20
Faltam 15kg, e ela não consegue colocá-los para fora.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Resenha: Wintergirls





Esta resenha contém informações que podem engatilhar sentimentos ruins em pessoas que possuam problemas com auto-imagem e alimentação.

Wintergirls é um livro de Laurie Anderson (autora de Speak, livro que inspiraria o filme de mesmo nome, conhecido como O Silêncio de Melinda no Brasil) que trata de temas psiquiátricos e densos, como anorexia, bulimia e auto-mutilação.


A protagonista é Lia, uma garota de 18 anos que sofre de anorexia há anos, tendo sido internada numa clínica especializada duas vezes - o suficiente para aprender a driblar a vigilância do seu pai e madastra. Tudo foge de controle quando recebe a notícia de que sua ex melhor amiga e bulímica, Cassie, foi encontrada morta num quarto de hotel, depois ligar 33 vezes para Lia, deixando mensagens de voz chorosas e desesperadas. Este evento empurra Lia para os ciclos de auto-destruição, fazendo com que ela restrinja ainda mais sua alimentação e volte aos antigos hábitos de se cortar. 

Filha de pais separados e ausentes, Lia mora com seu pai, sua madastra e a meia-irmã, já que seu relacionamento com a mãe é frágil e tempestuoso. Encarregada de pesar a garota toda semana, a madastra Jennifer se esforça para não pressioná-la e ainda manter uma relação saudável. O pai de Lia parece não entender a dificuldade da filha em comer, enquanto Emma consegue ser doce e despertar o que há de melhor na nossa protagonista amarga. Digo que Lia é amarga porque a anorexia a desligou do mundo: apatia ou agressividade são as reações mais frequentes na vida dela e, após a morte de Cassie, a garota se fecha ainda mais dentro da proteção que acredita criar através da perda de peso. 

Lia decide ir até o hotel onde Cassie morreu e conhece Elijah, que trabalha no local e encontrou o corpo da garota. Eles constroem uma espécie de amizade sem que ele saiba que Lia é a tal amiga a quem Cassie ligava desesperadamente na noite em que morreu. Embora não se abra de fato para o rapaz, ele parece ser a pessoa mais próxima dela naquele momento: enquanto seus amigos lhe viram as costas por ter ignorado as ligações de Cassie e sua família não sabe lidar com seu transtorno alimentar, fica cada vez mais fácil para Lia se manter presa à anorexia. 

"O único número que seria suficiente seria zero. Zero quilos, zero vida, tamanho zero, zero duas vezes, zero ponto." - pequeno trecho de quando Lia finalmente percebe que o número não importa. 

Rapidamente, a saúde já fragilizada de Lia se deteriora e ela se encontra congelando de frio enquanto o inverno toma forma. Wintergirls são as garotas sempre presas nas tempestades dentro de si: Lia e Cassie, melhores amigas unidas também por uma aposta perigosa feita há anos: "eu vou ser mais magra que você". Embalada em culpa, lembranças e até mesmo visitas do fantasma de Cassie, Lia se exercita até a exaustão durante a madrugada, se alimentando o menos que pode. Uma das culpas da protagonista que me chamou a atenção foi quando Cassie quis abandonar os comportamentos bulímicos e Lia providenciou os telefones de clínicas e psiquiatras, dando o apoio técnico enquanto contava para a amiga quanto estava pesando, o quão pouco comera no dia e até mesmo trocando de roupa na frente de Cassie, exibindo os ossos salientes que a anorexia lhe configurara. Lia não poderia ser uma Wintergirl sozinha. Mais tarde, ela descobre que Cassie morrera enquanto vomitava: seu esôfago, corrompido pelo ácido de anos de compulsão alimentar e vômito forçado, se rompeu. Seu corpo entrou em choque e Cassie morreu sozinha debruçada numa privada, um jeito chocante (e real) de deixar este mundo. 

Wintergirls é um livro pesado. Embora a dor da protagonista seja expressa sob metáforas, seu desespero e apatia são claros. Leitores menos experientes e compreensivos sobre o tema de transtornos alimentares poderão sentir pouquíssima empatia por Lia e não entender qual o motivo da agressividade dela contra os pais, bem como se irritar com a relutância da garota em aceitar o tratamento. 

A ilusão de uma mente que passa fome de que "vazia = forte" pode parecer exagerada e dramática, mas aqueles mais atentos irão notar que Lia não está sozinha nesse tipo de padrão doentio. A modelo Kate Moss já disse publicamente que nada tem um gosto tão bom quanto ser magra. Nossa sociedade associa magreza à poder, disciplina, controle e superioridade. A competição entre garotas é comum e incentivada, principalmente no que diz respeito à perda de peso. Lia é todas as garotas que sofreram ou sofrem de anorexia levadas ao extremo, rebuscada pela morte da melhor amiga. A história de uma garota que pesa 45kg e se sente obesa não é rara, tanto que infelizmente Wintergirls tem sido usado como manual em sites da internet em que as garotas incentivam umas às outras a aderir dietas perigosas e sustentar padrões de pensamento relacionados à anorexia, bulimia e vigorexia. 

No entanto, o caráter poético da escrita pode ser exaustiva e, muitas vezes, me senti cansada de ouvir falar em leveza, ossos, fantasmas e etc. Inclusive, à medida em que Lia piora, o livro se torna mais "frágil", com uma escrita cada vez mais metafórica e etérea; essa é uma abordagem interessante, porque a própria garota descreve sua situação como se seu cérebro estivesse coberto por uma névoa. Outro recurso da escrita de Laurie Anderson que aparece em Wintergirls é o texto tachado. Os pensamentos da parte de Lia que quer sobreviver ("eu preciso comer") aparecem com um risco em cima e uma frase antagônica na frente ("eu odeio comer"), demonstrando o duelo que existe dentro da mente de alguém sofrendo com um transtorno alimentar. 

Wintergirls é o mais próximo de entrar na mente de uma anoréxica, desde o cru até a metáfora. Aqueles que buscam entender como a dor se transforma em medo de engordar podem encontrar a resposta nesse livro. 

Não recomendo a leitura a pessoas que sofram ou já tenham sofrido com transtornos alimentares, já que ele é bem gráfico ao descrever os hábitos de Lia e Cassie, bem como o valor calórico das refeições e peso das garotas. Eu mesma demorei a terminar as 148 páginas (no Kobo) porque a histórica engatilhou bastantes sentimentos ruins. Aqueles que gostam de temas como doenças psiquiátricas, família e amizade vão encontrar em Wintergirls um roteiro completo e intenso.

"Eu estou com raiva que matei meu cérebro de fome e sentei tremendo na minha cama à noite ao invés de dançar, ou ler poesia, ou tomar sorvete, ou beijar um garoto ou talvez uma garota com lábios macios e mãos fortes." 

Em tempo, no Brasil o livro foi traduzido para Garotas de Vidro. Me recuso a tratá-lo assim porque não é esse o sentido de "wintergirls". 

domingo, 25 de maio de 2014

"Garota, Interrompida": a história de uma garota que enlouqueceu

Winona Ryder interpretando Susanna Kaysen no filme de 1999.

Susanna Kaysen poderia ser apenas mais uma garota de 18 anos que não tinha um plano muito concreto para o seu futuro. Mas um dia morrer pareceu uma boa ideia, e ela tomou uma garrafa de vodka com muitas aspirinas.

Situado nos anos 60, o livro Garota Interrompida recebeu uma adaptação cinematográfica estrelada por Winona Ryder e Angelina Jolie. Para quem viu o filme antes de ler a obra, desvincular Susanna e Lisa dessas duas faces ilustres pode ser difícil. (isso não é necessariamente um problema, já que ambas as atrizes foram capazes de capturar as essências das personagens - que são reais - mesmo com as mudanças no roteiro em relação ao livro).

Em 1960, ser louca era fácil. As mulheres desviantes da norma eram hospitalizadas por motivos pequenos, passando, muitas vezes, grande parte de sua vida em hospitais psiquiátricos sem o mínimo de dignidade e tratamento humano. Susanna Kaysen teve a sorte de ser internada num hospital particular, pago por seus pais, o que caracteriza sua história como uma exceção diante dos inúmeros abusos cometidos contra mulheres em tais instituições.

Após a tentativa de suicídio e outros episódios de depressão, auto-mutilação e algo como alucinações, os pais de Susanna a incentivam a passar "algumas semanas" num hospital psiquiátrico. Embora repetindo constantemente aos médicos que seus pais a obrigaram a isso, é ela mesma quem assina os papéis e se interna no hospital, sem dizer não à sua família ou médicos. Sua relutância em admitir que possuia, de fato, um problema, se mescla com a inconsciente vontade de fugir de um mundo de cobranças: ela era a única formanda de sua escola que não iria para a faculdade. Quando arranjaria um emprego bom? Quando arranjaria um marido? Até quando sofreria pressão por ser tida como promíscua? Embora se tratasse de um hospital, o claymoore Hospital torna-se o refúgio de Susanna contra uma realidade com a qual não estava em condições de lidar.

Para analisar a história de Susanna, é preciso entender que suas atitudes auto-destrutivas não partiam de um ódio consciente contra si mesma. A ideia de morrer a perseguia, porque a vida não era interessante o suficiente para permanecer. Susanna descreve em suas memórias que a overdose de aspirina foi uma experiência não de suicídio em si, mas de transformação, de assassinato da fração de si que desejava morrer. Por um tempo, funcionou, mas ela notou que essa experiência não foi suficiente para matar sua parte considerada defeituosa.

Numa passagem interessante, Susanna se dedica a relembrar o tempo que passou com o médico que a interna em claymoore. Ela conclui e argumenta insistentemente para o leitor de que não passaram-se 5 minutos de conversa entre eles para que aquele homem decidisse que ela deveria ser internada num "hospício". O argumento do Dr. é de que passou-se mais de uma hora: Susanna então deixa para o leitor a decisão de acreditar ou não nela. Nesse capítulo, vemos tanto a necessidade da autora em não ser tida como louca, quanto sua própria dúvida sobre sua sanidade. É essa, talvez, a essência de Garota Interrompida.

No hospital, Susanna encontra amizade, talvez, pela primeira vez. Na obra não são mencionados outros amigos ou amigas de Susanna, e ainda assim ela constrói uma relação de apoio mútuo na medida do possível com mulheres que ela considerava um tanto quanto mais loucas do que ela, ao mesmo tempo em que questionava o que é, afinal, ser louca.

Diante das histórias das mulheres no claymoore Hospital, Susanna percebe que, talvez, todos sejam um tanto loucos, mas que aqueles que são internados são os que tornaram-se inconvenientes. Aqueles que estragam as festas dos pais ou que, talvez, comecem a latir para um vendedor. A pessoa que sente vontade de latir e não o faz também é louca?

Diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline, Susanna não compreende sua própria doença, e demora muito tempo para sequer admitir que possuída um problema. Sua estadia no hospital foi de 18 meses, e foi depois de todo esse tempo que Susanna entendeu a loucura ou o que diziam ser: ela era uma garota de 18 anos que pensava demais, que duvidava da realidade e que fazia o que queria fazer. Talvez ela devesse ter algum tipo de freio mental que a impedisse de engolir um vidro inteiro de aspirinas, mas, para a autora, é essa a raiz do seu problema (e de todas as pessoas loucas): "Loucura é você amplificado."

O ambiente do hospital retirava das mulheres direitos básicos, como dormir ou depilar as pernas sem ser observada: ali era sua transição, ou, como Susanna descreve, "eles nos desvestiam até os ossos". A vulnerabilidade de estar num ambiente monitorado era considerada, pelos profissionais, uma pausa entre o mundo real do paciente doente e o mundo real do paciente são. Talvez fosse este o conforto que fez com que Susanna permanecesse em claymoore por tanto tempo, até ser capaz de entender a si mesma. A estranha liberdade de apenas ser. Até mesmo pequenas noções do espaço eram difíceis para que Susanna lidasse, como opostos: preto e branco, frio e quente. Decisões com as quais ela teria de lidar e que se tornavam monstros sob sua cama, mas que desapareciam sob a perspectiva de um local neutro e livre de pressões sociais.

Susanna deixa claro que sua recuperação não partiu dos médicos que a diagnosticaram e sim do que o paciente é capaz de fazer a partir desse diagnóstico e como seu corpo e mente são capazes de trabalhar com esse parecer.

A adaptação cinematográfica passa longe de descrever a jornada de Susanna no hospital. Aos poucos, o filme se torna muito sobre a visão de Susanna em relação a Lisa, e as duas fogem juntas - um evento que não acontece na história real de Susanna. O Hospital, para a Susanna verdadeira, era um refúgio do qual ela só saiu definitivamente quando estava pronta.

Garota Interrompida é um livro que deve ser lido com a atenção de que trata-se de um memoir, ou seja, as memórias de uma garota de 18 anos que passou dois anos internada num hospital psiquiátrico. A visão da paciente, de louca, de artista e escritora se intercalam numa narração crua e sem rodeios sobre coisas feias que se escondem em celas solitárias: suicídio, auto-mutilação e a dor da dúvida.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides


Uma história de fim óbvio, não só pelo título, mas pelo peso de seu tema. Jeffrey Eugenides caminha por uma escrita impecável, suave e feminina dentro de uma temática densa demais para meninas tão jovens e privilegiadas.

Virgens Suicidas se passa num subúrbio americano típico: famílias brancas de classe média alta, cristãs e vivendo o Sonho Americano: um carro grande, uma boa casa, filhos saudáveis. No entanto, o pecado das meninas Lisbon é serem quem são: rachaduras no sistema, no seio da família tradiconal, no amor que os pais juram ter dado.

Como narra Eugenides, Cecília foi a primeira a ir. Não na primeira, mas na sua segunda tentativa, e sua dor era ser: quando um médico questiona o suicídio de uma jovem tão bonita, ela aponta o óbvio: "Obviamente doutor, o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.".

Embora durante a narrativa fique claro que as cinco meninas Lisbon viviam sob um teto conservador e bastante limitado para jovens de sua época, elas não são maltratadas. Aqueles são os retratos de muitas de nós mulheres que crescemos ouvindo que querer um batom ou desejar um garoto era sujo, e que nós arderíamos no inferno caso quebrássemos a regra. O feminino era nossa prisão, um "caos feminino" inutilmente controlado por pais inseguros, em que ser mulher era um mundo de absorventes, laços cor de rosa e infantilização.


Embora adolescentes, as meninas Lisbon eram frequentemente tratadas como crianças (até mesmo pelos narradores, admiradores das suicidas), sem poder expressar qualquer traço de estarem atingindo a vida adulta, sem o direito de serem adolescentes que eram: seus hormônios e a vontade de serem desejadas por homens era mascarada por debaixo de vestidos feios demais e infinitas regras. A mãe que protege as filhas porque sabe que o mundo é cruel com as mulheres que andam fora da linha.

Após a morte de Cecília, os vizinhos dos Lisbon se questionam o que fez com que a menina se jogasse da janela do seu quarto. As hipóteses são várias, mas decidem por retirar a cerca na qual a menina de 12 anos havia se empalado, como se acostumaram os adultos a resolver problemas que não são sólidos.

Uma das meninas é alvo de maior atenção no livro, Lux. Aos 14 anos após a morte de Cecília e uma desilusão amorosa, Luz se envolve num ritual que, inicialmente, soa poético: os narradores a observam fazendo sexo no telhado da sua casa, fumando e quebrando as regras mais preciosas de sua família somente com o céu (e os garotos) como testemunha. Logo fica claro que esse era seu bilhete de suicídio, um ciclo de auto-destruição em que Lux sequer tirava algum prazer sexual de seus encontros noturnos, mecânicos e frequentemente unilaterais.

Depois dos pais desistirem de cuidar da casa, ou das meninas, os Lisbon e sua propriedade tornam-se a imagem de um sistema que falhou: uma mancha suja numa vizinhança perfeita, denunciando seja lá o que for que havia de podre ali.

O final da história era iminente: depois de censuradas, isoladas e de luto pela morte de uma das irmãs, as meninas Lisbon contatam seus admiradores por saber que eles as compreediam e, mais importante ainda, as amavam assim como eram, sedentas, ambiciosas e imperfeitas. As meninas não se despedem de ninguém, convidam os rapazes para levá-las para longe e, de certa forma, são mesmo eles quem as conduzem na viagem que as distanciaria da vida sufocante que viviam antes.

O romance de Jeffrey Eugenides traz a reflexão de uma juventude feminina deprimida e castrada. As virgens suicidas não são virgens no sentido sexual, mas virgens para a vida e suas belezas. O que as meninas Lisbon conheceram de bom se limitava na vida familiar e nas pequenas coisas compartilhadas por irmãs que se amam, e tão cedo perceberam que isso não era suficiente e que não poderiam esperar para ver se esse cenário mudaria. As virgens suicidas são todas as mulheres, cada uma de nós que oscila entre a inocência para mundo e a dor de sermos limitadas.

terça-feira, 11 de março de 2014

Manifesto de uma fã de mulheres


Ouça mais bandas de mulheres.

Se você acredita em feminismo, ou em que mulheres são tão capazes de fazer música boa quanto homens, ouça mais música feita mulheres. Já existe todo um mercado que prioriza homens e que restringe o acesso de musicistas ao cenário musical que lhes é merecido: dê um espaço na sua biblioteca a essas artistas.

Por muito tempo se acreditou (e ainda existem alguns anciãos que insistem nessa teoria) que mulheres não podiam tocar guitarra bem, quase como japoneses acreditam que as mãos femininas são quentes demais para fazer sushi. Talvez daí tenha vindo todo o preconceito que as mulheres receberam quanto tentaram adentrar o mundo do rock e suas vertentes.

Me lembro de assistir uma entrevista com a banda Dominatrix em que Elisa Gargiulo contava que jogaram garrafas de vidro no palco durante uma apresentação, nos primórdios da carreira: mulheres não são bem vindas. Mulheres feministas muito menos.

Mulheres no rock (e suas vertentes) são chaveiros pendurados em jaquetas de couro de rapazes bonitos de voz grave. Mas tudo bem, por que afinal, quem não quer ser a courtney Love de um Kurt cobain, não é mesmo? Você mulher, tem sorte de andar do lado de um cara tão bonito e talentoso assim. Ele poderia ter absolutamente qualquer uma, mas ele escolheu você!

Surgiu um desafio no Facebook que se tratava de listar livros importantes na sua vida. Rapidamente, uma amiga notou que os livros escolhidos pelas pessoas eram predominantemente (quase 100%) escritos por homens, com personagens homens. Ela desafiou as amigas feministas a listarem livros que tenham lido, escritos por mulheres: foi surpreendentemente difícil. Não porque mulheres não escrevem bem (vou supor que qualquer um lendo este texto saiba disso), mas porque a literatura, assim como (surpresa!) todos os outros espaços na nossa sociedade, é dominada por homens.

Nos últimos dias surgiu também um desafio dos Álbuns que marcaram sua vida. Percebi que os álbuns que marcaram a vida das pessoas (muitas delas mulheres) haviam sido feitos por bandas exclusivamente de homens. Por que as mulheres não estão marcando a vida das pessoas? Por que mulheres não estão se identificando com mulheres?

Nós também sabemos que as mulheres são valorizadas muito mais por seus aspectos físicos do que por qualquer outros: inteligência, perspicia, agilidade, etc. As musicistas estão sempre sendo pressionadas a investirem em sua aparência, não porque mulheres são naturalmente fúteis, mas porque, aparentemente, quando se trata de mulheres e talento, não importa se sua música é do caralho, se você não tem um rosto bonito, sua carreira se torna bem mais difícil.

Uma das coisas que me entristece é ler os comentários do Youtube de qualquer musicista, seja ela do tipo que dança sensualmente com pouca roupa ou que é recatada. Na primeira, seu talento é completamente esquecido (enquanto homens podem tocar sem camisa à vontade), e na segunda, ela é comparada à outras artistas que preferem mostrar o corpo em suas performances. A necessidade dos fãs (e da indústria) em comparar musicistas me choca. A competitividade feminina é estimulada em absolutamente todos os aspectos da vida de uma mulher.

A indústria não suporta ver duas mulheres fazendo sucesso ao mesmo tempo.

Recentemente a cantora Anitta tem feito covers de algumas músicas da Pitty. Anitta canta funk, Pitty canta rock. Ambas são musicistas, de gêneros diferentes, e uma respeita o trabalho da outra. A indústria (e os fãs) não suportaram o respeito (a sororidade!) entre duas mulheres: logo surgiram comparações, entre, obviamente, a aparência das duas e o modo de vestir. Pitty se pronunciou justamente sobre isso, chocada com o fato de que a profissão das duas foi completamente esquecida pelos fãs e, enquanto mulheres, elas foram lembradas apenas como objeto de decoração: dois abajures a serem comparados. Uma diminuída em face da outra. Mulheres não podem coexistir no mundo da música, aparentemente.

Sempre que você disser que ouve uma banda formada por mulheres, defenda-a. Perceba que as pessoas vão criticá-la porque são misóginas. Perceba que a aparência da vocalista vai ser o que vai colocar a banda no topo, e não aceite isso. Fale sobre como a voz dela é linda e te dá arrepios, e sobre como as letras descrevem uma vida que não é sua, mas que voconseguiu entender ao ouvir.

Não aceite que courtney Love seja "a mulher do Kurt cobain". Não aceite que as musicistas sejam acessórios da indústria musical, musas de homens tristes que decidiram morrer.

Fique acordado até de madrugada ouvindo a voz de mulheres que nunca vão chegar nas rádios brasileiras. Rebole sim ao som das que decidiram mostrar o corpo, e chore ao som das que tiveram o coração destruído por um cara que não valia a pena. Ouça as musicistas. 

Ouça as mulheres.

sábado, 8 de março de 2014

Dia Internacional de Luta das Mulheres

No Dia Internacional da Luta das Mulheres as pautas são tantas que fica difícil focar. A opressão contra mulheres é tão ampla e violenta que o movimento feminista não conseguiu em tanto tempo de existência no Brasil garantir um dos direitos básicos da saúde feminina: o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. O significado que isso carrega vai além da capacidade dos corpos das mulheres de "gerar vida": esse debate diz respeito à autonomia da mulher e sobre o quanto ela é dona de seu próprio corpo em pleno 2014.

Além das questões básicas de saúde pública, a luta pelo direito das mulheres de fazer o que quiserem com o seu corpo vai além, embora muitos não entendam isso. A liberdade sexual, a de ir e vir, de divertir-se e de tratar sua aparência como bem entende também nos é restrita. Não há lei que puna a mulher que faça sexo "demais" ou com "muitos" parceiros, mas o julgamento da sociedade patriarcal é tanto que nossa sexualidade é tolhida e inibida, e torna-se difícil (impossível, eu diria) distinguir o que de fato escolhemos para nós mesmas.

Nós desejamos um homem só para a vida toda, ou aprendemos que, se não desejarmos, perdemos o status já não muito gracioso de mulher de valor? Aqui falo somente de mulheres heterossexuais, embora lésbicas sejam coagidas e empurradas à uma heterossexualidade compulsória violentíssima.

Em Belo Horizonte, no Bar do cabral, uma jovem alcoolizada foi agredida por um estudante de Geografia. A notícia circulou pelas redes sociais e um professor da Universidade Federal de Minas Gerais comentou o assunto culpando a vítima por estar bebendo, naquele bar. com apenas uma postagem no Facebook, um homem já de cabelos brancos cercou a liberdade de todas as mulheres com acesso àquele conteúdo: a liberdade de ingerir o que bem entende, e a liberdade de frequentar onde bem entender. A segurança nos espaços e o bom caráter dos homens não nos é garantida, e nos cobram que permaneçamos em casa, lacradas, miúdas, fadadas ao divertimento (?) caseiro designado ao nosso gênero porque temos um buraco entre as pernas. Nos veem como vulneráveis e nos encarceram, ao invés nos darem poder. Poder este que quando exigimos somos loucas, exageradas, histéricas, feminazis. Não temos escapatória.

Nossa aparência não nos pertence: somos bonecas do patriarcado, pequenas misses sendo enfeitadas com vestidos cheios de babados e camadas que nos impedem de brincar na areia, correr e andar de bicicleta. Somos adolescentes de cabelo alisado, vomitando as refeições, diminuindo e diminuindo em função de garotos que aparecem na tv e têm o dobro da nossa idade. Somos jovens mulheres que não conseguem transar de luz acesa e que gastam o salário com cabelo, depilação e um par novo de botas a cada inverno: frequentamos o salão de beleza toda semana, mas nunca pagamos por uma massagem relaxante. Somos sempre insuficientes, para nós mesmas, para nossos pais, para nossos namorados e maridos.

Eu que não me calei
Eu que não quis ser objeto
Eu que fui violentada
Eu que sou mulher



O Dia da Mulher, como nossa sociedade o celebra, não pertence à todas. Alguns diriam que pertence à mulheres brancas, cis, hétero e ricas. Eu digo que nem a elas este dia serve, porque nem elas se adequam ao modelo impossível da mulher patriarcal. As mensagens que nos mandam se referem à mães e esposas perfeitas que se desdobram em mil, que não existiam sequer na década de 40. Seremos sempre insuficientes para a máquina patriarcal, não importa como formos. Por óbvio, aquelas que se desviem mais da norma serão maltratadas de ainda mais formas pelos homens, inclusive no 08 de março: elas que serão excluídas implicitamente através do "mulher de verdade". Elas que não são objeto de decoração. Elas que não servem à sexualidade masculina. Elas que não se calam.

Mais um ano de grades invisíveis que silenciam e torturam mulheres, tornando-as frágeis demais até para gritar. Mas, também, mais um ano de luta e empoderamento.

Misoginia não passará!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pequena

TW: esse texto pode ser triggering para pessoas sensíveis com assuntos relacionados à auto-imagem, peso e comida.

Desde pequena me ensinaram a me encolher para que os homens ao meu redor pudessem ser grandes.

No carro que me levava para a escola todos os dias, eu me encolhia porque o dono de um saco escrotal ao meu lado merecia mais espaço do que eu. Eu me machucava, mas isso não importava porque ele tomaria o espaço que era dele por direito.

Eu me encolhia quando os garotos passavam por mim porque bonitas eram as meninas pequenas e frágeis, não as grandes, as Preciosas. Bonitas eram as meninas que aos 11 anos tinham seios e cintura fina, sugestões sutis de uma mulheridade que não me pertencia enquanto uma criança que preferia comer a passar maquiagem. Eu me encolhia porque queria impressionar. Eu não sabia o que era ser heterossexual. Eu não era heterosexual. Nunca fui. Eu queria impressionar homens porque me ensinaram que era isso que eu deveria fazer, porque eu era simplesmente mulher.

Eu não me sentia mulher. Eu me sentia uma criança. Mas me ensinaram assim, então eu encolhia a barriga e empinava o peito.

Riam de mim. Nunca fui suficiente.

Quando aprendi a gostar de homens percebi que gostava dos mais altos, que me carregariam com facilidade, me abraçariam com um braço só.

Eu não precisava ser protegida, mas me ensinaram que meu lugar ao lado de um homem é sempre menor, então eu tinha que parecer pequena, frágil e delicada ao lado de qualquer homem com quem me relacionasse.

O peso também era importante. Pesar mais que um homem era inadmissível; até hoje, comer mais do que homens me deixa extremamente incomodada.

Me ensinaram a me encolher para mim mesma, a deixar de ocupar o espaço pelo que paguei, a deixar de me afirmar enquanto ser humano forte, a deixar de comer o que eu gosto porque 100g a mais no prato significavam que eu era uma porca imunda que come mais do que um homem.

Eu hoje, supostamente curada de transtornos alimentares e ainda me sentindo grande demais.
Homens têm um metabolismo mais rápido, me disseram. Por isso eles podem comer esse tanto e você não. Por isso eles podem ser gordos aos 15 anos e você não. Quando eles tiverem 19, eles vão ter corpos lindos e tudo vai virar músculo: quando você tiver 19, você vai estar se matando pra perder os quilos que ganhou anos atrás.

Nunca me ensinaram o que eu podia e não podia fazer enquanto mulher isoladamente. Havia sempre um paralelo inquietante: o homem pode, você não. O homem é, você não.

Minha vida se tornou um grande paralelo entre os homens à minha volta: coloco meu braço ao lado do de qualquer rapaz e fico triste quando vejo que o meu é maior. Vejo o prato do estranho na balança do restaurante à minha frente. O dele dá R$ 11,80. O meu dá R$ 14,10. Eu engulo o almoço sem felicidade alguma. Quando vejo a foto dos ossos da clavícula de um rapaz branco no Tumblr eu me odeio porque é simplesmente injusto que ele tenha aqueles ossos e eu não. Ele não precisa ser menor que ninguém. Eu tenho que ser menor que todos os homens do mundo.

Senão não sou mulher o suficiente.
Humana o suficiente, talvez. Pessoa o suficiente.

Se eu não for menor, não mereço.